domingo, 28 de setembro de 2008

O "TRALHÃO"


Neste época outonal, recordo os meus tempos de infância pelos montes, vales e socalcos de Figueiró da Granja. A rapaziada juntava-se logo pela manhã "armadilhada" com os "custilos"´(nome dado às armadilhas para apanhar pássaros). No dia anterior, já tínhamos apanhado a "aúde" (formigas com asas) que serviam de isco. Dirigiamo-nos em direcção às propriedades que tinham oliveiras e árvores de fruto para apanhar um pássaro, ao qual nós dávamos o nome de "tralhão" que depois de depenado e frito era um óptimo petisco. A "Costa" era o meu local preferido, já que é aí que os meus pais têm uma pequena propriedade. Como era emotivo colocar as armadilhas debaixo dessas árvores e, aquando das várias "rondas", verificar que tinhamos apanhado "mais um"!

Como nos sentíamos orgulhosos ao entrar na aldeia com os "tralhões" atados uns aos outros formando um cordão que colocávamos ao peito.talvez um acto um pouco cruel, todavia eram momentos de camaradagem e emoção que marcaram a minha infância em Terras de Algodres.

domingo, 21 de setembro de 2008

PODER E RELIGIÃO, UM CASAMENTO PERIGOSO (Parte II)


Na nossa sociedade portuguesa, esta ligação perigosa entre religião e poder político também esteve presente, infelizmente, ao longo da nossa história. Com a inquisição, foram muitos os que assassinaram pessoas em nome de um deus, que não era o Deus do verdadeiro Cristianismo.

Quem não se recorda da sociedade portuguesa antes do 25 de Abril?Também entre nós, muitas vezes, algum poder hierárquico da igreja não teve a capacidade suficiente de colocar em primeiro lugar os valores que o evangelho transmitia ( liberdade, solidariedade, unidade).

Hoje em dia, é importante que os homens e mulheres que lideram comunidades cristãs resistam aos interesses e pressões que os líderes políticos fazem, já que a razão da sua existência é outra. Já há 2000 anos, Jesus Cristo estava ciente da necessidade de distinguir muito bem estes dois tipos de poder:" A Deus o que é de Deus e a César o que é de César".

A maior parte das vezes, os políticos dão por um lado na esperança de virem a receber por outro, pois estão cientes da importância que a religião tem para as pessoas. Na verdade, são essas mesmas pessoas que lhes irão dar os votos aquando das eleições. Por isso, "colam-se" a tudo aquilo que é sagrado. Por vezes, a religião coloca-se, inconscientemente, ao serviço dos interesses temporais, em detrimentos dos espirituais.

A fronteira entre estes dois tipos de poder, por vezes, pode vir a tornar-se muito ténue.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

PODER E RELIGIÃO, UM CASAMENTO PERIGOSO (Parte I)


As notícias de ataques terroristas por motivos religiosos que nos entram todos os dias em casa através dos meios de comunicação social, devem levar-nos a uma reflexão sobre o relacionamento que deve existir entre poder temporal e poder religioso.

Na verdade, verificamos que o poder da fé, quando é mal interpretado, pode ser trágico para a humanidade. Em função de um "pseudo-deus" fazem-se as coisas mais bárbaras para a humanidade.O "11 de Setembro" é um exemplo ainda bem presente para todos. O racional deixa de funcionar. Os líderes religiosos que são ao mesmo tempo líderes políticos, cientes desse poder da fé, procuram interpretar os textos sagrados de acordo com os seus interesses pessoais. Não é por acaso que existe falta de escolaridade nessas sociedades. A esses líderes não lhes interessa que as pessoas se cultivem e pensem pelas suas próprias cabeças.

A falta de escolariedade e de cultura bem como a limitação e controle dos meios de comunicação social são estratégias que alguns líderes utilizam para levar o povo a agir de acordo com os seus interesses. Infelizmente, esta mescla entre religião e poder temporal ainda é uma realidade.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

NOSSA SENHORA DE FIGUEIRÓ


A vida e a história de uma comunidade intemporalizam-se através dos monumentos e esculturas que permanecem ao longo das várias gerações.
Hoje queria referenciar a imagem de Nossa Senhora da Graça que se encontra na frontaria da igreja paroquial. Para muitos, é mais uma imagem, desconhecendo o seu valor histórico. Para que o tempo não apague o seu simbolismo e a sua história, eis as palavras de Mons. Pinheiro Marques em Terras de Algodres acerca da mesma:

É de presumir que seja desse tempo(1170) a imagem da Padroeira, Nossa Senhora de Figueiró, mais tarde chamada Nossa Senhora da Graça, que durante muitos séculos esteve no trono do camarim e agora está colocada no seu nicho, na frontaria da igreja.
E esta hipótese é tanto mais admissível quanto é certo que a velha imagem é uma escultura gótica, em pedra, representando a Virgem amamentando o Menino, corôa baixa em torno da cabeça, segurando os cabelos caídos sôbre os ombros, roupagem de linhas sóbrias.
(...) é uma escultura antiquíssima, de alto valor histórico que durante mais de 400 anos foi venerada sob a invocação de Nossa Senhora de Figueiró."

terça-feira, 2 de setembro de 2008

QUEM CANTA AS NOSSAS CANTIGAS?


Um outro elemento importante na cultura dos povos é a sua música e as suas cantigas. Estas serviam muitas vezes de bálsamo para os homens e as mulheres que trabalhavam as terras. Li numa jornal regional que em Aguiar da beira foi criado um grupo que tem feito recolha e divulgação da música popular do seu concelho. Em Terras de Algodres, verifica-se que este aspecto da cultura popular não está a ser explorado. Os ranchos folclóricos foram desaparecendo. Há dez anos atrás, em Figueiró, começou por aparecer um grupo de música popular que rapidamente se extinguiu. As "politiquices baratas", muitas vezes, só destroem aquilo que é essencial. Para além de "Os Capelenses" não sei se existe mais algum grupo de música popular em "Terras de Algodres".

Antigamente, no Rancho Folclórico de Figueiró da Granja, liderado pelo Sr. Albano Oliveira cantava-se assim:

O meu Coração é Terra


O meu coração é terra

Hei-de o mandar lavrar

Semeá-lo de desejos

de quem por mim perguntar.


Ref:

Toma lá dá cá

Dá cá toma lá

O meu coração

Arrecada-o lá.


Dei um ai, tu não ouviste

Dei outro não deste fé

O meu coração é teu

O teu não sei de quem é.


Ref.


Ai, ai, meu amor ai, ai

Quem der um ai, alivia

Em certas ocasiões

Se não desse um ai morria.