quinta-feira, 20 de março de 2008

A PÁSCOA EM TERRAS DE ALGODRES





"Um outro uso e dos mais belos, quem vem dos antigos tempos e que ainda hoje se conserva, é a visita pascal, a que se chama tirar o afolar. No domingo, logo depois da missa e procissão com o Santíssimo Sacramento, o pároco, revestido de sobrepeliz e estola, acompanhado pelo sacristão, de opa encarnada, empunhando um grande crucifixo, seguido de alguns homens com sacos e cestos, e de numeroso rapazio tangendo campaínhas, entra em casa de todos os seus paroquianos a dar as bôas-festas e aleluia, aspergindo com água benta a casa e a família, que recebe de joelhos a visita de Nosso Senhor".

In Terras de Algodres, Mons. Pinheiro Marques

Para que não se esqueça:
Eis como Mons. Pinheiro Marques pinta com palavra o Domingo de Páscoa em Terras de Algodres!

Este dia é a oportunidade para as pessoas se reverem, já que muitos regressam à sua terra natal, nesta época especial.

No meu tempo de infância, recordo as visitas pascais quando o Sr. Padre Artur era pároco de Figueiró, Vila Chã e Muxagata. Causava-me alguma impressão o facto do mesmo se demorar algum tempo em casa das famílias mais ricas da freguesia.
Uma Santa Páscoa para todos os meus conterrâneos e para todos aqueles que me têm visitado neste meu e vosso espaço que visa exprimir o viver e o sentir de um povo, localizado em Terras de Algodres.

6 comentários:

al cardoso disse...

Tambem me lembro muito bem das visitas pascais do tempo do Abade Artur.
Sempre estava presente a recebe-lo com os meus tios na Quinta da Eira e, ate ajudava o meu tio avo, a colocar a verdura e flores a entrada da casa, belos tempos!
Felizmente que essa quinta ficou na posse de parentes nossos, mas ja nao volto a la receber a visita pascal.
Ja quanto ao Abade demorar mais tempo nas casas de gente rica, nao era de admirar pois ai havia melhores comidas e bebidas ( e ele gostava!) alem disso era uma forma que ele tinha, para agradecer-lhes os folares mais substanciais, mas que nao era la muito cristao, nao era!

Felizes festas pascais para si e todos os leitores!

Amaral disse...

João Paulo
Visita pascal (ou compasso) também, muitas vezes se deixa influenciar... sem dúvida que são homens (padres, leigos, seminaristas...) que fazem a visita; logo passíveis de errar. Mas era, e ainda é, frequente parar-se nas casas mais ricas. Porquê? Pois... quer queiramos quer não, o que conta é o poder do dinheiro. Infelizmente. Não deveria ser...
Quando fiz a visita pascal e foram umas oito vezes procurei evitar sempre essa ideia; tanto parava em casas ricas como pobres; e em casas pobres por vezes fazia um esforço enorme por vários motivos; mas quem era eu senão o mensageiro de Cristo? E se fosse ele que ali estivesse iria parar.
Desejo-te, a ti e aos teus, uma Santa Páscoa.
Abraço

Anónimo disse...

Deixo este texto, com o qual me identifico, e que me transporta ao tempo da minha adolescência e juventude.

A VISITA PASCAL


“Àquela hora em frente ao Seminário Maior a azafama já era grande. Carros e motoristas aguardavam, ansiosos, o fim das cerimónias pascais para levarem os ajudantes dos párocos para as mais diversas partes da diocese. Dada a extensão das freguesias e a escassez de clero, recorria-se a esta mão-de-obra. Os ajudantes, além de garantirem um breve estágio em contacto com o povo, sempre viam o seu pecúlio aumentado (em tempos de tanta míngua) com alguma gratificação pelo trabalho prestado.
Ei-los que partem com a sua alegria juvenil para mais uma aventura! Ao tempo primaveril associava-se um ansioso entusiasmo.
Cada um, chegado ao local do destino e tomado um almoço avantajado para a jornada da tarde que ia ser longa, partia acompanhado por um séquito de gente de opa vermelha, Cruz Pascal, magnificamente engalanada, caldeirinha de água benta com o respectivo hissope e a indispensável campainha que ia anunciando lá à frente a chegada da Cruz e do Senhor Prior. O toque festivo dos sinos e uma descarga de foguetes anunciava a toda a freguesia a saída das Cruzes.
A visita pascal decorria em passo acelerado porque a volta ainda era grande. Havia terras em que o núcleo populacional, que constituía o centro da freguesia, era deixado para o pároco, por vezes já mais idoso, e ao “caloiro” estavam destinadas as casas que se encontravam mais afastadas, constituindo estas, por vezes, quintas rurais bem distantes.
No ar festivo pairava o aroma fresco do alecrim, espalhado à porta de cada casa e matizado aqui e ali com pétalas de rosa e de camélias.
Naquele tempo ainda se associavam ao cortejo pascal os miúdos da terra que corriam de casa em casa à espera de algum pedaço de bolo esquecido ou de alguma amêndoa perdida. Era dia de festa na aldeia! Aqui e ali também acompanhavam a comitiva as meninas da terra que, em pequenos grupinhos, iam lançando, por entre risinhos excitados, os olhos gulosos e algumas graçolas sobre o jovem aprendiz de Sr. Abade. Este, por sua vez, ao aspergir com água benta as pessoas presentes no interior das casas, aproveitava para lançar uma dose bem mais copiosa sobre as ditas meninas, tentando afastar para bem longe, com a água benta, estas “tentações da carne”… mas em vão. Até a água pegava fogo!
Os mordomos e demais homens de opa vermelha não queriam deixar por mãos alheias a larga prova de vinhos que se lhes deparava em sucessivas mesas festivas. Uns porque eram primos, outros porque eram compadres, outros simplesmente porque era dia de festa, não deixavam de beber aquele néctar saído há pouco dos pipos de uma fresca adega. O homem da campainha ao sair de cada casa visitada, redobrava o toque da campainha. Entrava já numa espécie de delírio, de fúria dionisíaca e não havia mãos a medir. Lá bem à frente ele sentia-se o percursor da Cruz e do cortejo e não abdicava da sua missão. Por isso tocava, tocava que era um louvar a Deus! No meio dos verdes campos a escorrer água, o homem da campainha já só escorria vinho.
Subitamente fez-se um silêncio profundo. O tilintar da campainha esvaiu-se de todo. O que teria sucedido? Teria dado alguma coisa ao nosso homem? Acorreram os comparsas e viram o homem debruçado sobre a verde relva dos campos, como que procurando uma pérola perdida. Com o redobrar enérgico do toque, o badalo soltara-se e escapara daquele martelar de cabeça nas bordas da campânula de bronze. O homem, bem encharcado, buscava com a embriagada vista o badalo perdido. Quanto mais se debruçava sobre a terra, tanto menos força tinha para se erguer. Tantos trabalhos para nada! Do badalo nem sinal.
A situação caricata acabou por provocar o riso e a galhofa dos acompanhantes. Alguns berravam: “Olha este perdeu o badalo”. Outros gritavam: “Logo a mulher vai perguntar-lhe pelo badalo”. Estas e outras chulices corriqueiras beirãs cruzavam-se no ar festivo.
Agora, apenas ao longe se ouvia o estralejar dos foguetes que ecoava nos montes vizinhos, anunciando a chegada da Cruz Pascal.”

(in: beatonuno.blogs.sapo.pt/4496.html)

JPCLEMENTE disse...

Caro Anónimo!
Na verdade, também eu já fiz esse papel de "Aprendiz do Sr. Abade". Ídentifico-me muito com esse texto, pois eu próprio já o expriencie,com da última cena relatada (a perda do badalo).São muitas as histórias que se poderiam contar.O aprendiz do Sr. Abade, nesse dia, muitos cumprimentos dava às moçoilas da aldeia,pois elas andavam de casa em casa para cumprimentar o "Sr. Padre Novo".
O meu amigo e colega de carteira no Seminário, Amaral, também já viveu esta experiência.
Al. Cardoso essa seria uma explicação, mas a razão principal é outra, "menos católica".
Renovo os votos de uma Boa Páscoa para todos

Anónimo disse...

"Portugal precisa de uma Páscoa profunda, de uma passagem para a esperança, de uma passagem para o amor de nós e dos outros. "

Anónimo disse...

Mensagem de Páscoa do Bispo de Viseu, D. Ilídio Leandro, aos fiéis da Diocese:

"Vivemos, na nossa Diocese, um lema muito empenhativo, pela actualidade e pela riqueza pastoral: 'Jesus Cristo, a Boa Nova para um Mundo Novo'. Concretiza a primeira Mensagem de Jesus (Mc 1, 15 - "Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: fazei penitência e acreditai no Evangelho"). Por aqui começou a conversão a Jesus Cristo e n'Ele - o mesmo ontem, hoje e sempre - encontramos o Reino de Deus.
Este Reino de Deus é Cristo Pascal; esta Boa Nova é a Sua Palavra de Esperança e de Vida; o Mundo Novo é o crescimento do Mundo da Páscoa - semeado na justiça, na verdade, no amor e na paz. Os seus frutos serão a alegria, a confiança, a fidelidade, a amizade, o perdão e a solidariedade.
A Páscoa que estamos a celebrar mostra-nos qual é a aposta de Deus e quais são as Suas grandes causas. A Sua aposta é a salvação na liberdade e na qualidade de vida e as Suas grandes causas são as dos homens: Vida, no seu valor inviolável; Família, vivida no amor, na fidelidade e na comunhão; Pessoa, na sua realização pelo trabalho, pelo emprego e pela educação; Sociedade, dando lugar a todos, chamando todos à participação, no direito, na dignidade e na justiça.
Pela Ressurreição de Jesus Cristo - Quem dá tudo e a própria vida por esta aposta e por estas causas - está selada a garantia e certo o sucesso, na sua génese e na força necessária para o seu êxito. Ele está connosco.
Com a Páscoa de Jesus, nasce uma nova Cultura: a cultura do dar, do partilhar, do acolher, do amar, do agradecer. A Boa Nova de Jesus Cristo - Palavra de Deus - propõe e oferece tudo isto a rodos… Ele vem dizer-nos que é a Esperança verdadeira, que é a Ressurreição e a Vida e que n'Ele, encontramos respostas para todos os nossos medos, angústias e preocupações. Ele é a Páscoa - Viva a Páscoa!...
Do coração, desejo uma Santa e Feliz Páscoa para todos."